quarta-feira, 6 de agosto de 2008

São Paulo

Em fevereiro de 1946 minha família mudou-se para São Paulo (capital), que foi a primeira grande cidade que conheci. Naquele tempo, São Paulo da garoa, São Paulo dos caminhões de vendedores de figos (figos de Valinhos), dos bondes "camarões".
Nossa residência passou a ser na rua Eça de Queiroz, nº 346, esquina com a rua Cel. Oscar Porto. Era uma casa grande, pelo menos para meus olhos de criança, e tinha um bom quintal. Fui estudar no Colégio Madre Cabrini, na rua Domingos de Morais. Era semi-interna. Entrava às 7, ou 7:30 da manhã, e voltava para casa no final da tarde. Tinha oito anos de idade. Saía de casa logo cedo, subia a ladeira da Eça de Queiroz até a rua Cubatão, atravessava a rua e tocava a campainha na casa da dª Maria Galimberti, mãe da Dayse, três anos mais velha do que eu, e que era minha companheira para irmos para a escola. Andávamos até a rua Domingos de Morais e tomávamos um bonde, que nos deixava na frente do colégio. Tempos tranqüilos, em que uma criança de 8 anos podia ir sozinha para a escola, em São Paulo. Fiz, no Madre Cabrini, o 3º e o 4º anos do antigo curso primário. O uniforme era uma saia cor de vinho, pregueada, com grossas alças atravessadas: saíam do meio da cintura, na parte da frente, e seguiam uma para cada ombro, terminando atrás, na cintura. A blusa era branca, de manga comprida. Meias 7/8 pretas, e sapato preto. No frio, um casaco vinho. Passava o dia na escola e, quando chegava em casa, cumpria minha obrigação: arrumar a mesa para o jantar.
Terminei o curso primário com 10 anos, completados em novembro. Com essa idade não era possível iniciar o curso ginasial. Precisei, então, fazer a 5ª série, ou admissão ao ginásio. Mudei de escola, passando a estudar no Colégio Bandeirantes, na rua Estela. Era muito estudiosa, adorava estudar e sentia falta do colégio nas férias.
No Bandeirantes fiz o curso de admissão e a 1ª e 2ª séries do Curso Ginasial. Era uma escola muito boa, com ótimos professores. Lembro de alguns: professor Nórton, de História, prof. Mucioli, de Matemática, prof. Édison, de francês, prof. Gamba, de geografia, prof. Maristela, de Latim.
O professor Mucioli organizava, durante as aulas, competições de expressões fracionárias e me chamava de Chico Landi (um corredor vitorioso, da época), porque eu sempre terminava em 1º lugar. O professor Édison fazia com que decorássemos todas as preposições em francês, dizendo que tinha certeza que, quando velhinhos (as), balançando nas nossas cadeiras de balanço, conseguiríamos repeti-las todas. Tinha razão.
Naquele tempo havia boletim de notas mensais, com classificação por média. Acho que sempre mantive o 1º lugar.
Além da escola, íamos à Igreja Santa Generosa, a um parquinho de diversões muito simples, ao lado da Igreja, e ao cinema. Os cinemas mais próximos de casa eram o Cine Cruzeiro e o Fênix, ambos na Rua Domingos de Morais.
Brincávamos muito em casa. Fazíamos teatrinhos, jogos de palavras. Para o teatrinho, tínhamos um cenário feito de papel de seda azul, todo emendado, com estrelas de brocado (brilho prateado, que colávamos no papel). Havia uma grande porta de duas folhas, entre a sala de jantar e a sala de visitas e fizemos algumas apresentações ali. O espetáculo se desenrolava na sala de visitas, com o céu como cenário, e os assistentes ficavam sentados na sala de jantar. Eu tocava piano, que havia sido comprado na Fábrica de Pianos Brasil, e escolhido pelo pianista Alonso Aníbal da Fonseca, marido da minha professora, Dª. Suzana, que também moravam na rua Eça de Queiroz. Lembro de um teatrinho especial organizado pelo Sérgio em 26.03.1948, para festejar o nascimento da nossa irmã Olga Maria. Essas apresentação foi realizada na parte superior da casa, em dois quartos que tinham comunicação, e quem estava nos fazendo companhia era nossa avó Olga.
Brincávamos bastante na rua, com os amigos da vizinhança : pegador, amigo-inimigo.
Andávamos de patins e de patinete.
No carnaval, fazíamos bailinhos na casa das vizinhas de frente, as irmãs Betty e Flora, ou na casa da Ingrid (filha da dª Erna). Fazíamos artesanato com serpentinas, e brincávamos muito com tecelagem de papel. Comprávamos flores nas chácaras existentes no final da rua Estela, em áreas que mais tarde se transformaram na av. 23 de maio. Nossa vida girava quase que totalmente no bairro. Panificadora ABC, vendinha da esquina, onde meu pai me comprava deliciosos pedaços de coco fresco (que ficavam mergulhados num pote com água), lojas de armarinhos na Rua Cubatão, onde muitas vezes eu levava alguma costura da minha mãe, para que fizessem "tru-tru, ou ponto-ajur". Minhas irmãs menores estudavam no Externato Nossa Senhora Aparecida, que ficava na rua Afonso de Freitas. Antes de ir para o Bandeirantes, eu devia deixá-las na escola. Foi uma época muito boa. Minha mãe sempre comentou isso. Ela até tinha companhia para, às vezes, ir ao cinema : a Dora, tia da Vitória (mãe da Maria Elvira), com quem morava, num sobradinho da rua Cel. Oscar Porto.
No início de 1951, voltamos para Santos e fomos morar na rua Azevedo Sodré nº 22.



Anhangabaú. Acima, à direita, a famosa loja de departamentos Mappin, que tinha um salão de chá ultra-requintado.





Largo do Paissandu


































Cine Metro, na Av. São João, onde às vezes íamos aos domingos, de bonde. Nessa época, meu acompanhante era meu irmão Sérgio.











Praça do Patriarca, com a galeria Prestes Maia.
(Crédito de Benedito Junqueira Duarte)






















Rua Xavier de Toledo, onde ficava a Leiteria Americana. Muitas vezes tomei um bom chocolate, lá.


Bonde na Rua Xavier de Toledo. (foto do arquivo de Carlheinz Hahmann)













As fotos acima são da 2ª metade da década de 40 e primeiros anos da década de 50, coincidindo com os anos em que moramos em São Paulo.

3 comentários:

Foto antiga do Liceu Coração de Jesus-1962 disse...

Sua narração dos tempos antigos, me trouxe muitas saudades. Estudei no Liceu Coração de Jesus em 1962, nesta época o Liceu era muito famoso com seu uniforme e a sua banda. Em 1966 fui trabalhar nas lojas Isnard na Av. São João ao lado do Cinerama. Nossa quantas saudades tenho da S.Paulo antiga. Um grande abraço de Hamilton

Heloísa disse...

Hamilton,
Muito obrigada por sua visita e comentário.
Apareça outras vezes.

Anônimo disse...

Oi Heloisa!Parabéns pela iniciativa!Seu blog é ótimo,quem dera outros postassem imagens de época na internet.Eu postei algumas no Orkut (Evaldo Pereira)mas infelizmente não são da época e lugar que eu gostaria... Abraços!