quarta-feira, 24 de setembro de 2008

Cajobi, Monte Verde e Monte Azul Paulista




Em julho de 1954, fui passar alguns dias com minha avó materna, que morava em Monte Verde Paulista, distrito de Cajobi. Meu avô havia falecido no mês de abril, e essas foram as primeiras férias que eu tive fora de Santos. Nessa época, excetuando a viagem ao Rio, eu acho só conhecia Santos, São Paulo, São Vicente e Guarujá. Quase todos meus parentes pelo lado materno moravam no interior do Estado de São Paulo e, convidada por minha tia Jaryna, parti com ela e minhas primas Regina e Ana Maria para uma nova aventura. Nova desde o início, pois fomos de trem da Companhia Paulista de Estradas de Ferro, ocupando uma confortável cabine com camas. Foi aí que conheci esse maravilhoso meio de transporte, que muitos anos depois usei bastante em viagens pela Europa. Nessa primeira viagem de férias, fiquei alguns dias em Monte Verde, um em Cajobi, na casa de meus tios Paulo e Mercedes ( que nessa época já tinham dois filhos), e outros na casa dos meus tios Rodolpho e Milda, que moravam em Monte Azul Paulista com seus cinco filhos homens. Eram cidades pequenas e agradáveis. Essa viagem foi muito especial por ter permitido que eu convivesse com todos esses familiares que, até então, eu pouco conhecia. Como morávamos em Santos, e naquele tempo as distâncias eram realmente distâncias, não nos encontrávamos, excetuando nossos avós que de tempos em tempos vinham nos visitar, e passar uma pequena temporada em nossa casa.Também estavam por lá, nesse mês de julho, minha tia Carminha e filhos - nessa época eram três, Helina, Cecília e Fábio - além da tia Jaryna, com suas filhas, Regina e Ana Maria. Regina, Helina e eu, que regulávamos de idade, formávamos um ótimo trio, para conversas, risadas e passeios, principalmente na praça de Monte Azul. Cecília e Ana Maria eram menores e não nos acompanhavam. Nessa época eram comuns os passeios nas praças, os famosos "footings", com os rapazes parados e as moças andando. A Regina era alucinada por sorvete, e lembro que, num dos lados da praça de Monte Azul, havia uma sorveteria onde ela fazia a festa. Comprava um sorvete, que durava exatamente o tempo da volta na praça. Quando passávamos novamente na frente da sorveteria, ela comprava outro. Fazia isso várias vezes. Na praça também havia um serviço de som, usado principalmente para oferecimentos de música tipo "fulano de tal" oferece essa música para a "senhorita x". Tudo bem simples, bem prosaico, encantador.
Foram férias inesquecíveis e que marcaram, para mim, o início da forte amizade que me une às minhas queridas primas.

Na foto acima, Cajobi, na década de 50. Casario antigo aparecendo a antiga casa paroquial e a capela de Santa Terezinha, demolida por volta de 1958 . Autor da foto : Waldomero Garcia. Arquivo pessoal de Nilvânia Garcia.

Monte Azul Paulista - Próxima a Cajobi ( e Monte Verde Paulista). Única foto que consegui (site da Prefeitura Municipal de Monte Azul Paulista).

quarta-feira, 10 de setembro de 2008

Rio de Janeiro








Corcovado e Praia de Copacabana, na década de 50.



Com quase 16 anos, conheci a Cidade Maravilhosa. Fui com meus pais para os festejos da "entrega da espada de oficial do Exército" para meu irmão mais velho, na Academia Militar de Rezende. Ficamos hospedados na própria Academia, nos alojamentos dos estudantes (ou seria dos aspirantes a oficial do Exército?) e, de lá, fomos para o Rio, onde seria realizado o baile. Nessa época eu não tinha vestido de baile e minha mãe fez todo um roteiro para conseguir um para mim. Telefonou para sua cunhada que morava em São Paulo, nossa querida tia Jaryna, sempre disposta a ajudar, e ela entrou em contato com uma tia de minha mãe (Mariazinha, casada com Antonio Bulle), que tinha cinco filhas moças. Tia Mariazinha colocou uns três vestidos longos em uma caixa grande, e a Jaryna foi encontrar conosco na agência de onde sairíamos para o Rio, levando a encomenda da minha mãe. Havíamos saído de Santos, para uma baldeação em São Paulo e, assim, os vestidos, e alguns adereços, seguiram viagem conosco. Chegou o dia do baile, e eu não fui. Meu pai não permitiu. Como filha mais velha, eu tive o privilégio de ir para o Rio de Janeiro, e talvez algum outro, mas em contrapartida sempre enfrentei enormes dificuldades para poder participar de ingênuos programas sociais. Isso não aconteceu com tanta intensidade com minhas irmãs menores. Acho que fui abrindo caminho para que elas pudessem participar de bailinhos e passeios com amigas.

A viagem para o Rio de Janeiro, em agosto de 1953, que incluiu visitas familiares, foi rápida, mas suficiente para que eu pudesse perceber, desde então, as maravilhas da cidade.

quarta-feira, 3 de setembro de 2008

Guarujá

No início do ano de 1952, estive em Guarujá, acompanhando meus tios Paulo e Mercedes que estavam em viagem de lua de mel. Eles vieram para Santos, onde passaram alguns dias, e quando foram visitar o Guarujá convidaram a mim e ao meu irmão Sérgio para que fôssemos também. Guarujá fica logo ali, do outro lado do estuário, e achei incrível ter ido conhecer a cidade somente quando já tinha quatorze anos. O problema é que o acesso, naquela época, era muito difícil. Hoje há balsas para carros, e barcas para pedestres, que saem da Ponta da Praia e atravessam os 400 metros que existem entre Santos e Guarujá. Do outro lado, uma avenida, com várias linhas de ônibus. Naquela época, também havia pequenas balsas, que transportavam alguns carros, mas parece que a travessia era realizada principalmente por barcas que saíam da região do Mercado, ou da Alfândega de Santos, para o Itapema (atualmente Vicente de Carvalho). Em Itapema havia um trenzinho que ia até a Estação da Praia de Pitangueiras. Consta que o percurso tinha somente 9 quilômetros, mas na minha imaginação era muito maior. Foi exatamente dessa forma que chegamos ao Guarujá.














No centro, a estação da praia de Pitangueiras, tendo à esquerda o Morro do Maluf
Foto: cartão postal da década de 1950


Pude confirmar tudo isso com minha tia Mercedes, que lembra perfeitamente de todos os detalhes da sua viagem de núpcias. Chegando ao Guarujá, meu tio Paulo alugou duas charretes, para que pudéssemos passear pela cidade, pois ainda não existiam carros de aluguel. Dos passeios que fizemos, lembro bem da visita ao famoso edifício Sobre as Ondas, que tinha uma escadaria ao seu lado. Essa foto, da época da sua inauguração em 1951, pode ser vista em www.vitruvius.com.br/arquitextos/arq000/esp169.asp, em texto do arquiteto Maurício Azenha Dias.















O Edifício Sobre as Ondas – fachada curva abraça o mar. Foto de José Moscardi doada por Oswaldo Correa Gonçalves a FAU Santos


Anos depois desse passeio, mais precisamente em 1960, passei a trabalhar, como professora, em Guarujá. Até o final de 1966, para chegar na escola onde lecionava, eu tomava -às 6:30h da manhã- o ônibus 4 (na esquina de casa) e ia até a Ponta da Praia. Lá, embarcava na balsa, que até então levava carros e passageiros, para a pequena travessia e, do outro lado, tomava outro ônibus. Na mesma avenida onde ficava a escola, encontrava-se em exposição (e penso que ainda se encontra) a pequena locomotiva a vapor do trenzinho que fazia Itapema-Guarujá. Nos meus útimos anos de magistério, eu já estava motorizada, e fazia o percurso de carro, um fusquinha azul, até a Ponta da Praia. Entrava na balsa com ele, e seguia pela rodovia até o centro da cidade. Hoje essa rodovia é uma avenida, rodeada por ruas completamente construídas, que em nada lembram os enormes espaços vazios do ano de 1969, quando me despedi da carreira do magistério.